Hino Lusitano, Op. 10

João Domingos Bontempo (1771-1842)

Ref. ava070125

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Hino Lusitano, Op. 10

Hymno Lusitano, op. 10

 

Músico de simpatia liberal e maçon, Bomtempo é autor de diversas obras que reflectem a sua preocupação pelos acontecimentos políticos a que assistiu e esta peça é uma delas.

              O Hymno Lusitano foi, com efeito, composto para celebrar a vitória do exército luso-britânico sobre as tropas francesas comandadas pelo general Massena na terceira e última invasão a Portugal, concluída com a batalha das Linhas de Torres a 14 de Outubro de 1810.

 Para comemorar a vitória dos dois aliados decidiu o embaixador português em Londres, D. Domingos de Sousa Coutinho, conde do Funchal, oferecer uma festa que celebrasse, também, o aniversário do príncipe-regente (futuro D. João VI) cujo aniversário ocorreria a 13 de Maio do ano seguinte. Foi para essa festa que Bomtempo compôs esta cantata a que deu o titulo de «Hymno lusitano consagrado á gloria de Sua Alteza Real o Principe Regente Nosso Senhor e de todo o povo portuguez».

 O compositor encontrava-se então instalado em Londres, segundo tudo indica, desde Agosto de 1810[1], abandonando Paris, onde vivera largos anos e onde já não era politicamente correcto permanecer. O texto é do poeta e médico Dr. Vicente Pedro Nolasco da Cunha, amigo de Bomtempo, liberal e maçon tal como ele, que igualmente se encontrava em Londres, sendo um dos redactores do célebre periódico de emigrados portugueses O Investigador Portuguez em Inglaterra.

A obra é para uma voz solista - O Génio Lusitano-, papel que foi cantado na altura pela célebre soprano Angélica Catalani (a cantora dilecta de Marcos Portugal), coadjuvada por um coro a 4 vozes- o Coro Lusitano -  e para grande orquestra.

O texto é representativo de uma poesia académica de tipo alegórico, muito em voga, ainda, nas primeiras décadas do século XIX, em que Portugal e Inglaterra são designados com os seus nomes poéticos simbólicos (respectivamente Lysia e Albion) nele sendo mencionados os nomes de algumas vitórias importantes contra os invasores franceses, como as batalhas da Roliça (primeira vitória em 17/08/1808), do Vimeiro (21/08/1808) e do Buçaco (uma das últimas a 27 de Setembro de 1810), assim como os nomes dos principais heróis que se celebrizaram nessas batalhas: do lado inglês Beresford (marechal William Carr Beresford, comandante em chefe das tropas britânicas durante as guerras peninsulares) e os oficiais Trant (Nicholas Trant), Grant (Colquhoun Grant), e acima de todos, o duque de Wellinghton (Arthur  Wellesley); do lado português os generais Silveira (Francisco da Silveira Pinto da Fonseca Teixeira) e Bacelar (Manuel Pinto de Morais Bacelar).

 

Estruturalmente a obra consiste num diálogo entre os dois principais intervenientes, como se de uma extensa e desenvolvida ária se tratasse, intercalada por intervenções pontuais do coro. O estilo é, ainda, o do classicismo vienense, que vingava na altura, no qual Bomtempo nitidamente se filiava (prova de que Bomtempo seguiu bem as correntes musicais do seu tempo...) parecendo ora Mozart, ora Haydn, ora Beethoven, sem chegar bem a ser nenhum deles.   

 Nas devidas proporções e, tal como acontece com Beethoven, Bomtempo insere-se numa estética intermédia entre o Classicismo e um pré-romantismo incipiente, presente no estilo e, acima de tudo, na atitude que preside a muitas das suas obras, nomeadamente, nas que tiveram inspiração política, como é o caso desta. 

A obra foi aclamada com entusiasmo na época, tanto pela colónia portuguesa, como pelos londrinos, entusiasmo sem dúvida acrescentado pelo rescaldo da vitória recente, sendo repetida noutros concertos, para além do de Maio. Na imprensa inglesa do tempo (Morning Chronicle, p. ex.) surgiram elogiosas referências a seu respeito que o Investigador Português se apressaria a traduzir, dela se dizendo

 

«que abunda em tanta variação, novidade de effeito, e delicada imaginação; e mostra hum tão magistral império sobre os ricos e ilimitados recursos de huma extensa orchestra, que colloca o author entre os primeiros Professores do seu século (…)[2].

 

O Hymno Lusitano foi prontamente editado (para grande orquestra, soprano e coro) pelo já referido Muzio Clementi, compositor e editor de música, amigo de Bomtempo desde os tempos de Paris, e que agora se instalara, igualmente, em Londres (Cheapside). Viria a ter, mais tarde, nova versão impressa com texto italiano (de G. Caravita) e reduzida para piano e canto com menor número de coros (substituídos pela voz a solo) sob a designação de La Virtú Trionfante[3]. Igualmente a parte final da Cantata seria transformada numa peça para piano a 4 mãos e designada como March of Lord Wellinghton” from the Lusitanian Hymn. Ambas seriam publicadas por volta do ano seguinte pelo mesmo editor.

 

  A obra de João Domingos Bomtempo não é ainda suficientemente conhecida em toda a sua extensão de modo a permitir uma análise abalizada acerca do autor. Genial para alguns, enfadonha para outros, ela talvez peque pela ausência de uma estrutura uniforme que a identifique com um estilo bem personalizado. Daí a importância de edições como esta que permitem dar a conhecer um pouco mais da extensa produção do compositor.

 

 

 

 

Bibliografia:

 

ALVARENGA, J.P.(coord.), João Domingos Bomtempo, catálogo da Exposição. Lisboa: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 1993.

SARRAUTE,Jean Paul, Catalogue dês oeuvres de João Domingos Bomtempo, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian,1970

Scherpereel, J., A orquestra e os instrumentistas da Real Câmara de Lisboa de 1764 a 1834, (ed. bilingue : português/francês), Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1985

VIEIRA, Ernesto, Diccionário biográfico de músicos portugueses, 2 vols.,Lisboa 1900.

 

 

 

 

 

Maria José Borges

 



[1] Alvarenga, op. cit. p. 86.

[2] Vieira, vol. I., p. 118.

[3] Vieira, 117.

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