António Victorino D' Almeida (1940)

António Victorino D'Almeida nasceu em Lisboa, em 21 de Maio de 1940.


Origens Familiares:

ANTÓNIO VICTORINO GOULARTT DE MEDEIROS E ALMEIDA, cujo nome mais corrente é ANTÓNIO VICTORINO D’ALMEIDA, nasceu em Lisboa, em 21 de Maio de 1940, filho do advogado Dr. António Victorino de Almeida  e de Maria Amélia Goulartt de Medeiros Victorino de Almeida, de origem açoriana (Faial), que chegou a iniciar uma curta carreira de cantora lírica, como aluna de Francisco de Lacerda.O seu avô paterno, Achilles D’Almeida, era um óptimo músico ama-dor, além de autor teatral e encenador de vários espectáculos de teatro ligeiro.As suas filhas mais velhas, Maria de Medeiros e Inês de Medeiros são actrizes e realizadoras cinematográficas com carreira internacional de êxito firmado, e a sua filha mais nova, Ana Victorino D’Almeida, é violinista e compositora.Tem actualmente sete netos: Pedro, Júlia, Mariana, Oriana, Leonor, Francisca e Constança. 

Formação Escolar: 

Aos seis anos, António Victorino D’Almeida começou os seus estudos musicais com Marina Dwander. Depois, estudou piano com Fernando Leitão, composição com Artur Santos e Joly Braga Santos, e História da Música com Maria Augusta Barbosa.Foi sob a orientação de Campos Coelho que concluiu o Curso Superior de Piano do Conservatório Nacional de Lisboa com a classificação de 19 valores, a maior nota conseguida durante muitos anos até aí - e essa classificação permitiu-lhe obter uma bolsa do Instituto de Alta Cultura para estudar em Viena de Áustria.Tendo também terminado o curso dos Liceus, em que foi aluno de professores como Jorge Borges de Macedo, António José Saraiva ou Jaime Leote, foi com vinte anos para a capital austríaca, onde se aperfeiçoou como concertista de piano com Wladislav Kedra e Dieter Weber.  Em Viena, porém, dedicou-se muito especialmente ao estudo da composição, como aluno de Karl Schiske, tendo finalizado o Curso de Composição da Escola Superior de Música de Viena (actual Faculdade da Música) com a máxima classificação conferida por essa escola - a Distinção por Unanimidade do Corpo Docente -, obtendo ainda um prémio do Ministério da Cultura da Áustria, destinado ao melhor aluno finalista de cada ano.Também em Viena, agora com uma bolsa da Fundação Gulbenkian, estudou mais tarde música contemporânea com o compositor Friedrich Cehra, música electrónica com Dieter Kaufman e direcção de orquestra com o Prof. Koslik.

Actividade de Pianista:

Começou muito cedo, aos treze anos, a sua carreira de pianista, estreando-se na sala de concertos do Conservatório de Lisboa. E nessa qualidade, foi desenvolvendo uma actividade cada vez mais intensa, tanto em Portugal como no estrangeiro, a solo ou com orquestra, executando muitas das grandes obras do repertório pianístico e composições de sua autoria.
        
Em 1974, aceitou o posto de adido cultural em Viena, o que determinou que abrandasse muitíssimo durante os setes anos em que exerceu essas funções a sua carreira de concertista, mas continuou sempre a compor e nunca deixou verdadeiramente de tocar piano.
Assim, quando abandonou o posto em 1981, formou em Viena um Trio de grande êxito - e com características muito especiais, que revitalizou e valorizou a tradição do Wienerlied - com a grande actriz e cantora austríaca Erika Pluhar e o guitarrista búlgaro Peter Marinoff , ao mesmo tempo que voltou a realizar inúmeros concertos, muitas vezes acompanhados de comentário, criando assim um tipo verdadeiramente original de espectáculo musical.
Só com o Trio ( e com o Duo que formou com Erika Pluhar após a morte de Peter Marinoff), fez mais de 700 concertos, nomeadamente em muitas das mais representativas salas europeias: Konzerthaus de Viena, Mozarteum de Salzburgo, Burgtheater e Volkstheater de Viena, Ópera de Berlim, Ópera de Frankfurt, Kammerspiel de Hamburgo, Brucknerhaus de Linz, Schauspielhaus de Zurique, etc., etc.. E são incontáveis as suas actuações, como pianista a solo - e até como chefe de orquestra - quer em Portugal, quer em Espanha, França ( onde abriu o Festival de Verão de Estrasburgo de 1981, num recital muito fora do comum, dentro de uma jangada no meio do rio), Áustria, Suiça, Alemanha, ex-RDA, Holanda, Bélgica, Grécia, Liechenstein, Luxemburgo, Eslováquia, República Checa, Suécia, Polónia, Israel, Brasil, Canadá, Angola, Moçambique e ainda Macau.
As suas qualidades de concertista levaram-no a ser convidado para participar em diversos júris, nomeadamente no Concurso Viana da Motta de Lisboa e no Concurso Tschaikowski de Moscovo.
Em 1996, interessou-se pelo fenómeno musical dos chamados standarts americanos ou “música da Broadway”, tendo gravado um disco de grande êxito internacional - For Ever - com Erika Pluhar, em que apresenta uma interpretação nova e original desse repertório, associando um certo espírito jazzístico a uma técnica pianística de recorte perfeita-mente clássico.  

Actividade de Compositor:

Como compositor teve um período inicial que conta com peças inicialmente compostas aos doze anos ou ainda mais cedo e revistas mais tarde em Viena, por volta dos vinte anos, seguindo-se uma vasta produção, desde a música para piano e de câmara, à música sinfónica, ao Lied e à ópera, que o coloca, sem qualquer dúvida, entre os compositores portugueses com mais obra escrita.Muitas dessas obras ainda não foram estreadas, mas bastantes delas têm sido executadas ou dirigidas em concerto, tanto pelo próprio compositor como por grandes solistas e músicos de câmara, além de orquestras como a Sinfónica da RDP de Lisboa, a Sinfónica da RDP do Porto, a orquestra Gulbenkian, a Orquestra Sinfónica Portuguesa, a Nova Filarmonia, ou a Orquestra Metropolitana, entre outros agrupamentos nacionais, conduzidas por praticamente todos os principais maestros portugueses, e ainda a Orquestra Sinfónica de Viena, dirigida por Hans Swarowski, a orquestra de câmara da Filarmónica de Viena, dirigida por Alfons Egger, titular do “Corso Wien”, a Orquestra da ORF, dirigida por Silva Pereira, a Orquestra Tonkünstler de Viena, a Orquestra da Brucknerhaus de Linz, a Orquestra da Rádio de Praga, e diversos agrupamentos sinfónicos ou de câmara de Paris, Roma, etc..
Nas últimas folhas deste curriculum encontra-se o seu actual catálogo do compositor. Além disso, porém, compôs mais de duas dezenas de músicas de cena, para os mais diversos teatros, em Portugal e no estrangeiro, nomeadamente o TEP, o TEC, o Teatro Nacional D. Maria II, A Barraca, o Bando, o Teatro da Graça, o teatro da Escola Politécnica, o Burgtheater de Viena, o Schauspielhaus de Zurique, o Kammerspiel de Hamburgo, além de também escrever bandas musicais para várias peças e séries televisivas.É igualmente autor da banda sonora de inúmeros filmes, tanto em Portugal como na Áustria ou nos Estados Unidos: “Capitães de Abril”, “O Cerco”, “A Estrangeira”, “A Culpa”, “Lotação Esgotada”, “Marafona”, “A Casa da Rosalina”, “Mesas de Mármore”, “The Wooman in the Moon”, etc., etc.. Fora do seu catálogo de compositor, figuram ainda mais de meia centena de canções editadas em vários discos e CD’s por Erika Pluhar, quatro fados para Carlos do Carmo, e um fado para Misia, com texto de José Saramago, além de ter orquestrado 50 canções do grupo “Madredeus” (vinte e cinco das quais já editadas em disco e DVD pela Orquestra da Rádio da Flandres, dirigida por Bjarte Engeset) e uma canção de Rui Veloso, interpretada por este e pela Orquestra Sinfónica da Polónia, dirigida por José Cura. 

Discografia
como  Compositor: 

 Existem os seguintes CD’s integralmente preenchidos com obras suas:
Música de Câmara de António Victorino D’Almeida - Ed. Portugal Som, 1992.
“O Render dos Heróis”(pelo Grupo de Metais do Seixal) – Ed. Numérica, 1996, 
“Gaudeamus” (com Maria do Carmo Almeida e uma orquestra de câmara dirigida pelo autor). -
“Capitães de Abril”, com a Orquestra Sinfónica de Praga, dirigida pelo autor - Ed. CAM de Roma, 2000.

“Marafona” – Ed.ETE /Pluhar de Viena, 2001.
Música de Câmara I - Edição Numérica, 2003. 
Música de Câmara II - Edição Numérica, 2003. 
Música de Câmara III – Edição Numérica, 2003.
Sonatas de Piano nº4 e 7, Variações op.1 e 7 Nocturnos (por Ingeborg Baldaszti) - Ed. Numérica, 2203.
“A Fábrica dos Sons” (com narração de Maria de Medeiros e a Orquestra Sinfónica “Tonkünstler”de Viena, dirigida pelo autor) e “Pluhar Lieder”, com Erika Pluhar como solista vocal e a Brucknerorchester de Linz, também dirigida pelo autor: edição “Numérica”.
Sinfonia nº1 (aos 100 anos do S.L.Benfica), com a Orquestra Sinfónica da Bulgária, dirigida pelo autor: edição da “Numérica”.
Música Sinfónica de António Victorino D’Almeida: Sinfonia nº1 (Orquestra Sinfónica de Bulgária, dirigida pelo autor); “O Judeu” (Nova Filarmonia, dirigida por Álvaro Cassuto; “Memórias de Amanhã” (Orquestra Sinfónica Portuguesa, dirigida por Álvaro Cassuto); Abertura Clássica (Brucknerorchester de Linz, dirigida pelo autor). Edição da “Numérica”.
Encontram-se ainda obras suas integradas em outros CD’s, tais como:
Opus Ensemble 94 – Ed. Numérica, 1993
-Música Contemporânea Portuguesa (com Opus Ensemble)
Ed.Strauss, 2002
 Vocalizos
Ed.Movieplay, 1997- Flauta Portuguesa Contemporânea – Ed. Numérica,
1998
-Wiener Lieder (com Erika Pluhar e Peter Marinoff) Ed. ETE, 1990,Viena-Lieder aus 10 Jahren Trio (com Erika Pluhar e Peter Marinoff) – Ed.ETE, Viena, 1991.- Invenções Livres, de parceria com Carlos Paredes- “Marchas de Lisboa”, sair brevemente. E a isto haverá a acrescentar LP’s provavelmente esgotados, tais co-mo “Narben”,“Überleben”, “Liebende”, etc., com Erika Pluhar e Peter Marinoff, em Edições dos anos 80 da Polygram de Viena, e “A Catedral da Angústia”, obra experimental para banda magnética (Ed. de Valentim de Carvalho), além dos fados integrados em CD’s de Carlos do Carmo e Misia, e de outros discos antigos - e também esgotados - com Natália Correia, David Mourão-Ferreira, Mário Castrim, Raul Solnado, Baptista-Bastos, etc..  

Discografia como Orquestrador:

Euforia (com “Madredeus” e Flemish Rádio Orchestra, dirigida por Bjarte Engeset) – Ed. EMI, 2002
- Clássicos Madeirenses (Orquestra Juvenil da FMAC dirigida por Leonardo de Barros) - Ed.Dito e Feito, 2001  

Discografia (LP’s)
como Pianista:

19 Valsas de Chopin – Ed.ETE de Viena,1987
 
“António Victorino D’Almeida”, tocando Bach, Beethoven e Albéniz – Ed. Strauss 1995 (gravado em 1970)
For Ever – 25 Canções Clássicas (ou Música da Broadway) com Erika Pluhar - Ed. ETE, 1996 

 
Actividade de Chefe de Orquestra:

Ainda que nunca se tenha considerado vocacionado para esta actividade, já dirigiu em algumas dezenas de concertos e gravações com orquestras tais como a Sinfónica da RDP de Lisboa, a Sinfónica da RDP do Porto, a Orquestra Gulbenkian, a Orquestra do Norte, a Orquestra das Beiras, a Orquestra Sinfónica Portuguesa, a Orquestra Nacional do Porto, a Orquestra da Rádio de Praga, a Orquestra Sinfónica “Tonskünstler”de Viena, a Orquestra Sinfónica da Brucknerhaus de Linz, a Orquestra da Rádio da Flandres (esta apenas numa gravação experimental com o grupo “Madredeus”) e diversos agrupamentos de câmara, em Portugal, na Áustria, em França ou em Itália.

Actividade como Escritor
:

Sob influência e incentivo de professores como Jorge Borges de Macedo ou António José Saraiva, começou muito cedo a escrever, tendo publicado até hoje oito livros, alguns deles esgotados ou já com múltiplas edições.
“Histórias de Lamento e Regozijo”(novelas), “Coca-cola killer” (romance), “Um caso de Bibliofagia”(novela), “Polisário ou Memória da Terra Esquecida”( reportagem); “Música e Variações”(1ºVolume de uma História da Música); “O que é a Música”( ensaio); “Tubarão 2000”(romance), “Duetos Imprevistos” (guiões de uma série televisiva), Músicas da Minha Vida (edições Dom Quixote), além de contos e artigos vários em jornais e demais publicações.        
Escreveu ainda uma adaptação para teatro de “A Relíquia”de Eça de Queiroz (sendo igualmente o autor da música), que constituiu uma dos maiores êxitos de sempre do teatro “A Barraca”, com Maria do Céu Guerra na protagonista.
        
Além disso, escreveu peças para teatro - “O Ventre de Jeremias” (já estreada, com encenação de Catarina Santana) ou “Casgting”- e guiões para diversos possíveis filmes: “A Teia”, “A cidade da Memória”, “História de Palhaços”, “O Tempo e as Bruxas”, etc.
        
Escreveu igualmente o libretto da sua própria ópera: “O Canto da Ocidental Praia”, sobre a vida e obra de Luís de Camões.     

Actividade Cinematográfica:

É realizador de duas longas-metragens, a primeira das quais - “A Culpa” -, também com guião de sua autoria, foi o primeiro filme português a ganhar um 1ºPremio num importante festival de cinema no estrangeiro: Festival de Huelva de 1980 (ex-equo com um filme do consagrado realizador chileno Miguel Littin. A sua segunda longa-metragem - “Mesas e Mármore”- foi produzida pela ORF e teve como protagonistas André Heller e Erika Pluhar.        
Realizou ainda para a ORF um documentário sobre o fado, denominado “Gemeinsam”. 
Recebeu o 1º prémio como realizador de um documentário sobre assuntos ambientais - “As Maravilhas do Nosso Tempo”-, num concurso organizado pela RTP, Diário de Notícias e Quercus. Realizou ainda uma série de 6 filmes de ficção para a RTP -“Contos e Vigários”-, sendo igualmente o autor dos guiões. 

Actividade Televisiva:

Tem desenvolvido ao longo dos anos uma intensa actividade televisiva, à qual se deve, como é natural, uma grande parte da sua popularidade.        
Com efeito, a revista TV Guia fez durante o ano de 1992 uma prospecção entre os seus leitores que deu a António Victorino D’Almeida o prémio de “o músico mais popular do país”, largamente à frente das figuras mais conhecidas e prestigiadas da música pop ou mais comercial - o que constituiu uma enorme surpresa. Na qualidade de autor, realizador e apresentador, produziu inúmeros trabalhos, documentários isolados ou séries televisivas sobre música, tanto para a RTP como para a SIC ou também para a ORF, tendo recebido os mais variados prémios, desde “o melhor autor” ao “melhor realizador” ou ao “melhor apresentador”, atribuído por diversos jornais e revistas.
As principais séries televisivas em que actuou na tripla função de autor-apresentador-realizador foram até hoje: “Histórias da Música”, “Tema e Variações”, “A Música e o Silêncio”, “A Nota Sensível” e “As Fontes do Som”, para a RTP; “Duetos Imprevistos”, com a colaboração de Bárbara Guimarães, para a SIC e , mais recentemente, “Pianíssimo”, também para a RTP.Idealizou e apresentou ainda duas importantes séries de programas sobre música em forma de concurso para a RTP: “Ouvir e Falar”, em que se lançaram vários jovens músicos hoje consagrados, e “À Volta do Coreto”, que deu um assinalável incremento ao prestígio e popularidade das bandas filarmónicas.        
Participa regularmente em programas televisivos, tanto na qualidade de entrevistado sobre assuntos relacionados com cultura, como na qualidade de júri de concursos - ou mesmo de comentador desportivo. 
  

Actividade Radiofónica:

Escreveu e apresentou o programas radiofónico “Hoje Respondemos por Música”, enviado de Viena, e tem participado regularmente em muitíssimos outras emissões, nomeadamente com Sena Santos, Vítor Nóbrega, Luís Tinoco, etc.. 
Actividades Paralelas:         
Encenou para o Teatro Experimental de Cascais a peça “Sinfonietta” de Tardieu, em que teve uma das suas primeiras intervenções de maior vulto o actor Mário Viegas.
         Participou como actor em filmes de Fonseca e Costa, Joel Farges , Maria de Medeiros e Erika Pluhar, tal como na série televisiva “Residencial Tejo”, ao lado de Maria do Céu Guerra.        
Foi presidente da Assembleia Geral do Sindicato dos Músicos e fez parte como suplente da Direcção da SPA, tendo sido também cabeça de lista da oposição nas mais recentes eleições da mesma cooperativa.
        
Idealizou e apresentou séries de espectáculos musicais, tanto no Forum Picoas como no teatro Maria Matos, em que se apresentaram pela primeira vez diversos jovens artistas que são hoje nomes consagrados da música portuguesa.        
Tem organizado outros eventos musicais de alto nível cultural - mas também com grande adesão popular -, tanto em Idanha-a-Nova como em Caminha, Paços de Brandão ou noutros locais, e foi o responsável pela programação dos primeiros Festivais de Vilar de Mouros. Deu durante seis anos cursos de História da Música na Universidade do Porto, com mais de cem alunos inscritos, e também em Tavira e em Faro, igualmente com uma grande afluência de ouvintes.
Foi candidato como independente pelo MDP/CDE a deputado ao Parlamento Europeu, tendo perdido a eleição apenas por trezentos e poucos votos.         Foi condecorado por várias organizações portuguesas pela sua acção militante em defesa dos direitos dos animais, tendo também recebido duas medalhas do Sport Lisboa e Benfica  Tem desenvolvido uma intensa actividade como conferencista e divulgador cultural, tanto em Portugal como estrangeiro, o que lhe fez receber duas condecorações do Presidente da República Áustria: a Grande Insígnia de Prata (por altos serviços prestados ás relações culturais entre Portugal e a Áustria), e a Cruz de Honra Austríaca das Ciências e das Artes, esta uma das mais prestigiadas daquele país.         
No 10 de Junho de 2005, recebeu do presidente Jorge Sampaio a Ordem do Infante D. Henrique.

 

ANTÓNIO VICTORINO D’ALMEIDA          

 por Alejandro Erlich-Oliva   

 

 

A produção artística e literária de António Victorino D’Almeida constitui, no seu todo, uma referência de primeira magnitude na vida cultural portuguesa das últimas décadas.  

Pianista, compositor, escritor, realizador de cinema e de televisão, encenador, conferencista e comunicador, a sua acção é de tal maneira ampla e diversificada que a mera listagem das suas criações, título por título, excederia, pela sua extensão, as possibilidades e os objectivos deste trabalho.  

De facto, este vasto cosmos criador está integrado por uma discografia de mais de 20 referências como compositor e 3 como pianista, um catálogo de compositor de mais de 130 opus (e 50 canções fora de catálogo), autoria de obras literárias, musicológicas e políticas, realização de célebres séries televisivas, documentários, longas metragens e programas radiofónicos, música original para teatro, cinema e televisão, vários títulos de dramaturgia operática e teatral e até participações como actor.  

Isto tudo “polvilhado” com vários importantes prémios de diversas especialidades, e complementado por uma carreira de pianista e conferencista que inclui centenas de apresentações, um pouco por todo o mundo.  

Não faltam neste panorama responsabilidades institucionais tais como a direcção artística de festivais de música, a acção docente universirária, a participação no júri de concursos musicais, vários anos de brilhante gestão como Adido Cultural da Embaixada de Portugal em Viena e a distinção com duas altas condecorações do Estado Austríaco.           

Não foi publicado até hoje nenhum ensaio especificamente dedicado à catalogação, análise e contextualização da enorme produção intelectual de António Victorino D’Almeida, e algumas das suas composições ainda não foram estreadas. No entanto, a sua obra em constante expansão forma um caleidoscópio vivo e actuante de cultura portuguesa (no sentido mais multi-disciplinar da expressão), cujo estudo sistemático e rigoroso é, no meu entender, uma premente necessidade, para uma melhor divulgação (dentro e fora das fronteiras) das figuras que estabelecem, por gravitação própria, o perfil actual do pensamento português. Isto é prioritário, numa altura em que o país deve assumir com coragem as potencialidades da sua identidade cultural, sob risco de continuar a ser centrifugado rumo à periferia numa Europa em plena “ampliação de instalações” e perante uma globalização que, almejada como factor de disseminação irrestrita de ideias e conteúdos, está a funcionar, em alguns aspectos, como um inexorável mecanismo de descaracterização.  

Liberdade de escolha perante modelos e influências e total ausência de auto-censura são os rasgos essenciais da música de António Victorino D’Almeida. Este itinerário colide irremediavelmente com todos e quaisquer preconceitos de etiquetagem musical ou divisão em géneros inconciliáveis.  

Com feroz alegria, António Victorino D’Almeida quebra os compartimentos estanques, combinando assim variadíssimas vertentes estéticas: da modulação cromática póswagneriana até ao dodecafonismo, do atonalismo até ao neoclassicismo, aventurando-se por vezes - com bem-humorada frescura - nos territórios da música étnica, do cabaret Berlin, do café concert françês, da canção urbana de Lisboa ou de Viena e até, para escândalo de alguns, do piano cocktail americano.   Já tive oportunidade de comentar publicamente este “amplo espectro” da sua música:    «...A mise em musique de António Victorino D’Almeida é excelente. As melodias estão cuidadosamente elaboradas com a preocupação constante de proteger a intérprete, nunca ultrapassando o limite das suas possibilidades vocais.

As harmonizações e as instrumentações são de um espantoso colorido, e perfazem um brilhante exercício de «folclore imaginário». Sem nunca cair no postal ilustrado de cores berrantes, cada canção estabelece uma atmosfera folclórica específica, típica do país de origem de cada poeta.

No entanto, este mimetismo estilístico não pressupõe a perversão camaleónica do “Zelig” de Woody Allen por um motivo bem concreto: para além da sua carga “para-étnica” toda essa produção é fortemente presidida pelo cunho pessoal do compositor.

Este factor mantém-se, nítido e inconfundível, mesmo quando submetido a tão radicais metamorfoses...» (in A CAPITAL, 28 de Junho de 1996, acerca do CD NUMÉRICA 1048, Gaudeamus - A União Europeia canta os seus grandes poetas).    «...Todas as influências são válidas na estética de António Victorino D’Almeida, porque enriquecem o seu mundo sem adulterar a sua personalidade.

Erik Satie, Igor Stravinsky, Kurt Weill, Serguei Prokofieff e Nino Rota sobrevoam por instantes esta música que homenageia todos eles sem ficar, no entanto, amarrada “ao carro triunfal de nenhum vencedor”...» (in A CAPITAL, 4 de Outubro de 1996, acerca do CD Portugalsom 870030 PS, Música de Câmara de António Victorino D’Almeida).    «...Um velho, mas ainda vigente postulado, ensina-nos que, na criação artística, a maneira mais nobre de honrar as influências consiste em conseguir, através delas, uma identidade própria.

A música de António Victorino D’Almeida exemplifica com brilho essa mágica alquimia, em que a combinação de elementos básicos de variada índole pode originar, quando realizada com mestria, um produto final altamente específico com enorme vantagem qualitativa em comparação com a mera soma dos seus elementos constitutivos...» (in A CAPITAL, 24 de Janeiro de 1997, acerca do CD NUMÉRICA 1060, O Render dos Heróis).

   Esta recorrente flexibilidade não ameaça a coerência criadora de António Victorino D’Almeida porque é exercida com honestidade intelectual e com sólido conhecimento técnico. Longe de tentar “ir à boleia” de certas tendências de crossover que andam no ar, ele foi pioneiro nessas andanças trinta anos antes de que começassem a estar na moda.  

Sendo António Victorino D’Almeida um dos músicos portugueses mais conhecidos pelo assim chamado “grande público”, subsiste no entanto uma certa faixa de opinião que - apesar de aplaudir as incursões jazzísticas de Friedrich Gulda e de Andre Previn, os duetos de Menuhin com Grappelli, as “escapadelas” Klezmer de Itzak Perlman ou as enigmáticas colagens “transmozartianas” de Michael Nyman - jamais perdoará a António Victorino D’Almeida ter emparceirado com Carlos do Carmo, Carlos Mendes, Rui Veloso ou Carlos Paredes.

Essas traquinices só têm graça quando acontecem no estrangeiro. A este insolúvel paradoxo pode-se-lhe aplicar uma agudíssima frase do próprio compositor: «...Portugal tem um problema de optometria: só vê bem ao longe...»  

O longo contacto profissional de António Victorino D’Almeida com a realização cinematográfica e televisiva não poderia deixar de se reflectir na sua música. Ela denota, de facto, uma relação íntima entre o pensamento musical e o mundo da imagens. Sente-se (ou melhor dizendo, adivinha-se) uma visualidade inerente que está instalada no âmago dos sons. A maioria das suas obras, tanto sinfónicascomo de câmara, têm qualquer coisa de indefinível que jamais foram rodados.  

Mas quando ele compõe especificamente para banda sonora, a sua música não se deixa subalternizar pela força das imagens. Qualquer destes trechos, se fosse publicado em suporte sonoro sem imagens, sobreviveria airosamente como excelente objecto musical, ergo, de fruição sensorial exclusivamente auditiva.   Existe também um certo pendor literário na música de António Victorino D’Almeida.

É de algum modo detectável um subtil carácter programático em algumas das suas obras, que parecem seguir um romance (ou um poema) que ainda não foi escrito. Isto acontece de uma maneira muito interior, quase como uma pulsão inconsciente. Ele não partilha o ideário da música programática, num sentido cabal, mas também rejeita os aspectos mais “pasteurizantes” da teoria da “música pura”.   Escreveu o compositor:   «...Considero que a inútil utopia de fazer a chamada «música pura» é tão absurda como pretender escrever um texto que não signifique absolutamente nada. E assim, sem se entrar nos terrenos específicos da “música de programa” (um areal não isento de perigos, quando os autores caem na tentação de se transformarem em imitadores do vento, dos passarinhos ou das trovoadas tropicais...), há que aceitar que a música pretende sempre transmitir uma mensagem...» (nos textos do fascículo do CD Strauss Portugalsom - Opus Ensemble interpreta música portuguesa contemporânea).   O presente triplo CD apresenta um total de 17 obras para diversas formações instrumentais, desde o solo absoluto até ao octeto.

O perfil das combinações responde, tanto histórica como organologicamente, ao mais amplo leque imaginável.   O quarteto de cordas op. 50 (CDI 1) é a mais convencional (por assim dizer) das instrumentações, por quanto se inscreve (com conclusiva autoridade, diga-se de passagem) no amplíssimo repertório dedicado a esta consagrada formação instrumental, que constitui um dos eixos fundamentais na História da música de câmara, desde finais do Séc. XVIII até aos nossos dias.  

Os duos para violoncelo e piano (CD II bl|bn) para violeta e piano (CDIII 2|4) e para trompa e piano (CDIII 5|7) e o Trio op. 77 para piano, clarinete e violoncelo (CDIII 8) entroncam em modalidades que iniciam o seu processo de configuração em finais do período clássico e atingem a sua maturidade a partir do terço central do Séc. XIX.  

O duo para flauta e guitarra op. 80 (CD II 1) integra-se no catálogo internacional actualmente disponível para estes dois instrumentos tão vocacionados, acústica e psicologicamente, para funcionar muito bem em conjunto.  

O solo absoluto para aerofones de palheta conheceu um grande crescimento a partir de princípios do Séc. XX, com uma certa supremacia quantitativa de obras para clarinete, talvez em virtude da sua fulgurante agilidade e da espantosa capacidade de controlo dinâmico, que o torna monarca absoluto do diminuendo al niente, entre todos os instrumentos sinfónicos. Sem pretender explorar a fundo nenhuma destas características, este furtivo Gato Barnabé op. 46 (CDI 3) esboça um sorriso cúmplice ao Prokofieff de “Pedro e o Lobo”, em referência à conotação do timbre e dos recursos do clarinete com a flexibilidade física e a imprevisibilidade de carácter do gato.   Todas as outras obras deste triplo CD apresentam formações instrumentais impossíveis de enquadrar historicamente.

A rarefacção de antecedentes torna-se óbvia e o insólito atinge o seu cúmulo no hilariante duo para flautim e tuba (CD II bo), os dois extremos de tessitura da música ocidental antes do advento das fontes sonoras electrónicas.   Esta enorme diversificação, onde praticamente cada peça tem a sua instrumentação específica, levanta difíceis obstáculos à produção discográfica, decorrentes dos grandes recursos humanos envolvidos, das inquantificáveis horas de ensaio necessárias e da complexidade do puzzle da calendarização das sessões de gravação.  

Quando o trabalho está feito, o hercúleo esforço esbate-se, e o importante, o que deveras interessa, é o resultado atingido. A concretização do objectivo foi conseguida a cem por cento. Este triplo CD constitui um evento editorial maduro e caudaloso que, paradoxalmente, satisfaz uma legítima necessidade cultural e, por inerência, cria outra. Refiro-me à urgente publicação desta colectânea em música impressa.

As 17 obras gravadas enriquecem o panorama actual da música portuguesa, estimulam a prática da música de câmara, tornando-a possível também para certos instrumentos carentes de repertório original suficiente nessa área, e disponibilizam um precioso acervo pedagógico para análise e execução nos níveis superiores do ensino musical. Estas virtualidades ficarão canceladas se não houver um fácil acesso ao material por parte de alunos, professores e intérpretes em geral.  

Por último, não quero deixar passar o pormenor - significativo e nada inocente - da presença do acordeão, instrumentos não pertencente à música considerada erudita, mas que se assume, em O Cerejal op. 60 (CDI bo) e em Piaf op. 69 (CDIII 1), como interlocutor válido em igualdade de condições com os seus colegas sinfónicos, tanto em eloquência discursiva como em riqueza de recursos técnicos.  

 Como objecto discográfico em si, este extenso trabalho não desilude as melhores expectativas. A óptima qualidade técnica de gravação e montagem e o alto nível artístico das interpretações instrumentais são factores que também contribuem para a credibilidade do produto final.   O corolário é simples: acaba de ver a luz uma das mais importantes realizações de sempre na discografia de matriz autoral portuguesa. 

 

Alejandro Erlich-Oliva    Lisboa, 25 de Abril de 2003

 

Este compositor tem 153 obras na editora AvA:

Orquestra (32)

Ensemble (5)

Música de Câmara (10)

Madeiras (10)

Metais (11)

Cordas (5)

Canto (4)

Ópera (1)

Piano (22)

Guitarra (2)