A Fábrica dos Sons op.45

de António Victorino D' Almeida (1940)

Ref. ava100513

 Orquestra e Narrador 1976

(Speaker, Picc, 2Fl, 2 Ob, 2 Cl Sib, 2 Bsn, C Bsn,T Sax, 4 Hn F, 2 Trp C, 2 Tbn, Tb, Timp, Xyl, T B, 4 Perc, Sistro, Cel, Hp, 2 Pno, Strings)

Duração: 50'

A Fábrica dos Sons é, nitidamente, um exemplo de música programática. A partitura sinfónica descreve e comenta as alternativas de um texto que o ouvinte vai conhecendo com antecedência.
A estética oscila entre o ambiente nostálgico-circence dos filmes de Charlot e o caos controlado que caracteriza certa música pioneira da contemporaneidade, com sobreposição de temas em diferentes tonalidades, um pouco à maneira das primeiras experiências de Charles Ives em princípios do século XX.
 

A Fábrica dos Sons sobrevoa a atmosfera própria dos acompanhamentos ao vivo nos espectáculos de cinema mudo e da música original dos começos do cinema sonoro. Mesmo quando o nível de complexidade alcançado afasta a obra das raízes estilísticas que a inspiraram, subsiste um aroma indefinivelmente anglo-americano dos anos 20, próprio do drama chaplinesco-industrial (por assim dizer) que o hilariante texto relata.
Vigora nesta partitura uma perfeita utilização dos recursos tímbricos e um indeclinável respeito pela "fisiologia" de cada sector instrumental (mais uma vez, obrigado, Fernando Lopes-Graça, pela penetrante expressão que instala a lógica da Biologia no âmbito da Música...). As intervenções solísticas estão invariavelmente na tessitura certa e permitem a cada instrumento respirar à vontade e expressar-se no seu próprio idioma musical. As passagens virtuosísticas podem ser eventualmente difíceis mas jamais são impossíveis. A escrita não pede maçãs ao limoeiro e vai buscar os efeitos onde eles melhor resultam.

A arte da orquestração, por alguns considerada uma ciência, exige um profundo saber oficinal, um profissionalismo sem fissuras. Se a isto acrescentarmos nobreza na condução melódica, inteligência nas harmonizações, rigor nos procedimentos contrapontísticos e equilíbrio no sentido da forma, estaremos perante o perfil inconfundível de um compositor sinfónico a sério.

António Victorino D'Almeida consegue manter o seu itinerário criador, distanciando-se tanto do radicalismo experimentalista como da tentação das soluções fáceis. Está implícito nestas obras o enigmático provérbio
in extremis, medium, acunhado com subtil humorismo pelo ilustre argentino Oliverio Girondo.

António Victorino D'Almeida está de regresso de todos os "ismos". Dono e senhor de uma experiência musical de cinco décadas, não se demite da sua liberdade criadora, assumida com coragem na juventude e tenazmente cultivada ao longo de uma carreira onde tudo o que fez e faz foi e será honesto, polémico, discutível e, por isso mesmo, fascinante. Há, no entanto, dois aspectos que não admitem discussão: a solidez da sua formação técnica, inerente aos grandes professores que orientaram os seus estudos, e a sua fecundidade artística, materializada num catálogo de mais de 180 composições.

Para além da sua acção multidisciplinar como pianista, escritor, historiador, realizador de televisão, chefe de orquestra, etc., António Victorino D'Almeida é, acima de tudo, um compositor maduro em plena floração, um marco referencial na hora de avaliar quem é quem na evolução da modernidade musical portuguesa.

Alejandro Erlich Oliva
Lisboa, Maio de 2004

 

A FÁBRICA DOS SONS 

 

I

Nós vamos hoje imaginar aqui um filme do Charlot. É um filme que não existe mas que talvez pudesse ter existido ou que poderá existir no nosso imaginário se evocarmos as figuras e as situações criadas por Charly Chaplin e dermos largas à nossa fantasia.      

Charlot trabalhava numa fábrica de produzir sons inúteis. E quanto mais estúpidos, incompreensíveis e inconsequentes fossem esses sons, mais enriquecia também o Big Boss, figura imensa e irascível.      

Eis que um dia, porém, o quotidiano da fábrica foi sobressaltado por uns sons estranhíssimos, uns sons que toda a gente entendia, umas frases musicais infamemente assobiáveis que provocavam a perplexidade nas oficinas  e a indignação na gerência.      

Procedeu-se a uma busca intensa, pois os sons audíveis alastravam alarmantemente num desafio descarado à indústria dos sons inúteis – e descobriu-se o culpado: era Charlot, claro, pois quem havia de ser?...E ainda por cima ria-se, achava graça às melodias libertadas pelas máquinas, ousava até esboçar uns passos de dança!...       Assim principia a história da “Fábrica dos Sons” que a orquestra vos vai contar.      

Tudo começa com um tremendo chinfrim. Depois, ouve-se ao longe, ainda vagamente, um saxofone. A ameaça de uma melodia espalha-se pelos vários naipes. E o clarinete, impúdico e provocador, dá-vos a conhecer a figura de Charlot… 

 

II      

Charlot é conduzido à sempre temida presença do Big Boss, representado pelos trombones e pela tuba. Mas o terrível patrão surge como um homem arrasado pelo desgosto. De mãos na cabeça, olha o gráfico – sempre a subir, a subir, a subir… - que assinala os progressos financeiros da empresa, aponta num gesto dramático uma ligeiríssima descida, talvez apenas uma oscilação, lá muito no alto, e proclama que está arruinado!       Charlot tenta dizer-lhe que não será tanto assim, mas o Big Boss parece sincero. E os seus lamentos são tão pungentes que Charlot se oferece para o acompanhar a partir daí, fiel e solitário, pelos caminhos da miséria e da vagabundagem.

       Lembra-lhe que a vida dos pobres até pode ter aspectos não diria positivos, mas suportáveis… Uma noite debaixo de uma ponte nem sempre é um pesadelo – no verão, claro… De manhã, os pássaros chilreiam nos arvoredos, respira-se o ar da liberdade e os frutos rapinados nos pomares alheios até têm um sabor especial…

Mas como se notará nas pancadas de bombo e nos violentos acordes dos metais, o inflamado discurso de Charlot é interrompido por uma saraivada de pontapés e o Big Boss, de novo igual a si próprio, ameaça-o com o despedimento se voltar a humanizar os sons e a causar prejuízos à industria!      

 

 III      

Com a alma triste e o corpo magoado, Charlot regressa ao trabalho mas detém-se ainda para escutar o saxofone de um cego que toca numa esquina e pensa que há gente abandonada pela sorte que mesmo assim é capaz de confortar os outros com melodias sonhadoras… 

 

IV      

Charlot está de novo integrado na barulheira da fábrica, até que soa o toque da sirene anunciadora da paz – e do almoço…      

Mas para Charlot há uma surpresa melhor: a visita bem-amada de Clara, filha do Big Boss, a qual – às escondidas do pai, evidentemente – lhe retribui os sentimentos apaixonados.           

E a doce Clara, que todos reconhecerão numa melodia do piano desenvolvida pelas cordas, traz-lhe uma proposta fascinante.      

Com efeito, o Big Boss acabara de encomendar da América uma máquina que era a última palavra em inutilidade, a tecnologia mais avançada no campo da estupidez sonora!      

Mas a rapariga interceptara um telegrama em que o inventor da maquineta lamentava não poder comparecer ao baile que o industrial dos sons inúteis organizaria em sua homenagem e vinha assim propor que Charlot se disfarçasse de inventor americano, trouxesse consigo uma caranguejola qualquer, capaz de produzir ruídos horrendos, para exibir aos convidados, de forma a passarem juntos um serão, talvez ao som de valsas, que, ali mesmo, no seu enleio, começam a idealizar… 

 

V      

E chega a desejada noite. Junto da moradia do Big Boss, acumulam-se opulentos automóveis de onde saem industriais, ricos comerciantes, banqueiros, celebridades da vida política e social, tudo gente de avultada fortuna, mas com o rosto marcado por terríveis angústias: o preço do petróleo, as oscilações da bolsa, as crises internacionais… Independentemente do luxo, das vestes sumptuosas, das jóias, das peles cada vez mais raras, vê-se que é gente que sofre na luta heróica pelo progresso do mundo moderno.        

E a sua movimentação, embora garbosa, tem algo de dramático: é como uma dança dos milionários desfavorecidos…      

Mas à porta da casa, linda e radiosa, está Clara, como se pressentirá num solo de violino…      

 Charlot chega, disfarçado de inventor americano. Cumprimenta uns e outros com um gesto superior, e apressa-se a abrir o baile, enlaçando ternamente a namorada, mas tentando, sempre que pode, aplicar uns pontapés no traseiro do Big Boss, como se tudo não passasse de uma nova forma de valsar…      

 E após a valsa, num ambiente de grande expectativa, segue-se a demonstração da máquina, cujos ruídos medonhos deixam a assistência extasiada!      

Só que, em dada altura, Clara atravessa a sala, Charlot segue-a com o olhar, distrai-se, humaniza os sons e é logo denunciado como impostor…Amargurado por ter de se separar da apaixonada, Charlot tem mesmo de fugir, após uma perseguição fértil emtrambolhões, rasteiras e travessas de tarte à la creme, destramente enviadas à cara dos perseguidores! 

 

VI      

A Fábrica dos Sons entrou em greve.      

Os operários reclamam o direito – ou mesmo o dever – de produzirem sons que as pessoas possam entender. As máquinas pararam e o ambiente de vigília é tenso, ameaçador…       Soam, aqui e além, melodias tristemente célebres, lembrando outros confrontos.      

 O Big Boss envia os seus emissários, pessoas evoluídas e bem falantes, mas os operários insistem no seu teimoso intento e voltam a entoar as famigeradas canções de revolta.      

Não há outra solução senão recorrer à sempre prestimosa e eficaz intervenção da guarda a cavalo e dos seus chanfalhos… Os recalcitrantes tentam escapulir-se como podem e cedo abandonam os derradeiros focos de resistência, depois de levarem uma valentíssima sova!      

Mas o Big Boss não ganhou a partida, pois Clara foge de casa e vem juntar-se a Charlot, iluminando com a sua presença a tristeza dos grevistas.      

As máquinas da fábrica recomeçam o seu trabalho mas, mas a cada momento, o Big Boss, sente-se ameaçado pela subversão e sabe que um dia virá em que será mesmo obrigado a produzir sons que sirvam para alguma coisa, sons que toda a gente entenda…           

E enquanto isso, cá fora, Clara e os revoltosos espancados dançam uma grande valsa de esperança na qual todos vocês estão convidados a participar!

 

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